Domingo - 05/09/2010 - 15h32

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles (1901-1964) - Poetisa, escritora, pintora e jornalista carioca.

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Domingo - 29/08/2010 - 09h58

Angústia


A ninguém chorei tantos clamores
Que estalam em meu peito angustiado
Ninguém sabe, talvez, que acerbas dores
Moram em meu coração dilacerado.

Já não sinto prazer, não sinto amores
Sou desta vida um pobre revoltado
Bebendo a taça dos meus dissabores
Para o que fui, meu Deus, predestinado.

Dias tristonhos, horas pensativo
Sem encontrar sequer um lenitivo
Sem uma mão carinhosa que me valha.

Só o que posso esperar nesta amargura
É o silêncio sem par da sepultura
Nas dobras flexíveis da mortalha.

Manoel Erasmo


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Domingo - 22/08/2010 - 10h48

Nilo Santtos


Que mistério, esta vida, esta grande via,
Tempo que muda de cara, qual magia,
Tempo de mudanças, de tecnologia,
Tempo que a gente nem imaginou um dia.

Um dia achamos fascinante a tipografia,
Que o off set aposentou sem piedade,
Pois cada tempo traz as suas novidades,
Como a fascinante informática, que viria.

E a nossa maquininha de escrever,
Que não era arma, mas sagacidade
Para nossas lutas pela liberdade,
Que um dia afinal vimos nascer.

Mas agora, nesse dia, mais surpresa,
Para quem a internet agora curte,
Você está aqui no seu Orkut,
Que na convivência é uma beleza.

Mas não responde mais nossas mensagens,
Está mudado, construindo outra história,
Restando a nós apenas a memória
Daquelas tuas belas reportagens.

Walter Medeiros
é jornalista

P.S - Na quinta (19), o jornalista Nilo Santos - recentemente falecido - faria aniversário. Receu essa homenagem de Medeiros.

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Domingo - 08/08/2010 - 09h34

Meus Versos

Guarda meus versos, meu sangue e toda minha vida
É a minha memória já gravada
Nela verás um coração e em cada
Frase verás uma ilusão perdida...

Somente eles encerrarão a história
Da minha vida triste e amargurada
Sem ânimo, sem conforto, angustiada
Em desespero atroz, sem amor, sem glória.

Eles douram a graça, a consciência pura
É sempre a virtude, é a ventura
E a chama das minhas ilusões.

É o meu leito, guarda, tenhas cuidado
É um rico tesouro entrelaçado,
Onde estão toas as minhas emoções.

Dagmar Costa - Poeta grossense (poema incluído no livro "A Saga a Poesia Sobrevivente", coordenado por Genildo Costa, com trabalhos de poetas de Grossos e Areia Branca).


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Domingo - 25/07/2010 - 12h10

Carta a Papai Noel


Seu moço eu fui um garoto
Infeliz na minha infância
Que soube que fui criança
Mas pela boca dos ôto...
Só brinquei com gafanhoto
Que achava nos tabuleiro
Debaixo dos juazeiro
Com minhas vaca de osso
Essas catrevage, moço,
Que se arranja sem dinheiro.

Quando eu via um gurizim
Brincando de velocipe,
De caminhão e de jipe,
Bola, revólve ou carrim
Sentia dentro de mim
Desgosto que dava medo,
Ficava chupando o dedo
Chorando o resto do dia
Só pruque eu num pudia
Pegá naqueles brinquedo.

Mas preguntei certa vez
A uns fio dum dotô
Diga, fazendo um favô
Quem dá isso prá vocês?
Mim respondeu logo uns três
Isso aqui é os presente
Que a gente é inocente
Vai drumí às vezes nem nota
Aí Papai Noé bota
Perto do berço da gente.

Fiquei naquilo pensando
Inté o Natá chegá
E na Noite de Natá
Eu fui drumi me lembrando
Acordei, fiquei caçando,
Por onde eu tava deitado
Seu moço eu fui enganado
Que de presente o que tinha
Era de mijo uma pocinha
Que eu mesmo tinha botado.

Saí c'a bixiga preta
Caçando os amigo meu
Quando eles mostraram a eu
Caminhão, carro e carreta
Bola, revólver, corneta,
E trem elétrico, até
Boneca, máquina de pé,
Mas num brinquei, só fiz ver
E resolví escrever
Uma carta a Papai Noé.

“Papai Noé é pecado
Aos outros se matratá
Mas eu vou lê recramá
Um troço qui tá errado
Que aos fio do deputado
Você dá tanto carrin
Mas você é muito ruim
Que lá em casa num vai
Por certo num é meu pai
Qui num se lembra de mim.

Já tô certo que você
Só balança o povo seu
E um pobre que nem eu
Você vê, faz qui num vê
E se você vê, porque
Na minha casa num vem?
O rancho que a gente tem
É pequeno mas lhe cabe
Será que você num sabe
Qui pobre é gente também?

Você de roupa encarnada,
Colorida, Bonitinha,
Nunca reparou qui a minha
Já tá toda remendada
Seja mais meu camarada
Pr’eu num chamá-lo de ruim
Para o ano faça assim:
Dê menos aos fio dos rico
De cada um tire um tico
Traga um presente pra mim.

Meu endereço eu vou dá
De casa que eu moro nela
Moro naquela favela
Que você nunca foi lá
Mas quando você chegá
Qui avistá uma paioça
Cuberta cum lona grossa
E dois buracão bem grande
Uma porta veia de frande
Pode batê que é a nossa.

Luiz Campos é poeta mossoroense


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Domingo - 18/07/2010 - 12h02

Cuidado com o lixo


Acho que o pessoal
já não tem educação
a cidade anda suja
parecendo um lixão.
Ninguém tá preocupado
é lixo por todo lado
entupindo o grotão.

Para ser bom cidadão
tem que cuidar da cidade
zelar por sua limpeza
não é fazer caridade.
É dever de todos nós
sujam rio até a foz
seja dita a verdade.

Não é questão de bondade
ou mesmo de simpatia
quem só pensa em si mesmo
não deve ter alegria.
Vamos pensar no vizinho
limpar o nosso cantinho
pra viver em harmonia.

Casca de fruta na via
provocando acidente
cachorro morto na vala
causando sua enchente.
Tem acessório de carro
tem bituca de cigarro
queimando o pé da gente.

Também o povo carente
contribui co'a mazela
já vi resto de comida
jogado pela janela.
Saco de lixo na rua
pé-de-cabra e gazua
na porta duma capela.

J
á vi tampa de panela
entupindo um bueiro
colchão velho e sofá
bem no meio do terreiro.
Escova, garfo e faca
de cachorro, muita caca
exalando seu mau cheiro.

Esse povo de dinheiro
anda muito ocupado
eu já vi em bairro nobre
resto de concreto-armado.
Palito de picolé
um pacote de café
do quinto andar ser jogado.

Vi um coco descascado
papel de bombom no chão
um banco enferrujado
pendurado num portão.
Encontrei pneu careca
um short, uma cueca
e um braço de violão.

A
o passar o caminhão
para recolher o lixo
derrama a churumela
enche a rua de bicho.
Não se faz a varrição
e o lixo pelo chão
é só falta de capricho.

Não quero fazer buxixo
mas conto o que já vi
tubo de televisão
e de carro, um chassi.
Balde, cabo de vassoura
e até peruca loura
de um velho travesti.

Agradeço ao gari
que trabalha pra valer
varrendo essa cidade
pra um outro recolher.
A estes vai meu abraço
por trabalhar no mormaço
todo dia a varrer.

O que tô a descrever
não é mera ficção
vamos ter que reciclar
reduzir a produção.
Todo esse consumismo
vai gerar um cataclismo
e sumimos no lixão.

Não repito a lição
mas posso dar um conselho
escreva sobre o lixo
se mire no meu espelho.
Seja em prosa ou verso
para o bem do universo
vá metendo seu bedelho.

Eu não vou ficar vermelho
por ter sido intimado
a escrever umas linhas
em verso metrificado.
É dever do cidadão
não deixar o seu irmão
vir a ser prejudicado.

Já é fato consumado
lixo e corrupção
a sujeira na política
apavora a Nação.
Isso é café pequeno
e a dose do veneno
está nesta eleição.

Vamos usar a razão
pra todo lixo varrer
na hora de dar seu voto
pense no que vai fazer.
Nesse balaio de gatos
escolha o candidato
que pareça com você.

Luis Campos é um poeta baiano (Salvador), cego, que aborda questões ambientais, sociais e humanísticas em sua obra. 

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Domingo - 04/07/2010 - 12h09

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Cora Coralina - (1889-1985) - Poetisa nascida em Goiás.


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Domingo - 04/07/2010 - 08h17

Para se roubar um coração

Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se alcança o coração de alguém com pressa.

Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado.

Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente.

Conquistar um coração de verdade dá trabalho, requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança.

É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade.

Para se conquistar um coração definitivamente tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos.

Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes, que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago. ...e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele, vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.

Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração. Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.

Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que? Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.

Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava. ... e é assim que se rouba um coração, fácil não?

Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade, a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!

E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... é simples... é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você.

Luís Fernando Veríssimo - Escritor e cronista


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Domingo - 27/06/2010 - 02h56

Romance sonâmbulo

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Federico Garcia Lorca (1898-1936) - Poeta e escritor espanhol morto no início da guerra civil espanhola.  


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Domingo - 13/06/2010 - 07h26

Partida inteira

Minha alma cega
enxerga o teu corpo
rasgando
os sóis nus da madrugada

Minha alma louca
persegue os teus olhos
incendiando
as luas tortas da noite

Minha alma vã
colhe o teu cheiro
mergulhando
nos ventos doídos da tarde

Minha alma vai
sem pressa
ao encontro
da perdição:
um corpo só corpo
sem alma
a minha.

Leontino Filho


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Domingo - 06/06/2010 - 07h14

Quando a hora chegar

Vou-me um dia quando a hora chegar
e quero ir sorrindo, sem mágoas, feliz,
sentindo saudade de tudo que me alegrou
esquecendo o que me provocou tristeza

Os abraços e beijos do meu amor, claro,
irão comigo aquecendo-me o coração
não esquecendo seus olhares doces
fotografados sempre por meus olhos

Irei perdoando quem me fez chorar
sem levar os ressentimentos do agora
e prometo não lembrar a falsidade
de quem me lançou olhares de inveja

Não, não desejo saber quando me vou
o melhor da partida é deveras a surpresa
mas ao chegar esse dia, tenho certeza,
estarei escrevendo minhas poesias.

Gilbamar de Oliveira


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Domingo - 30/05/2010 - 11h10

A morte chega cedo

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Fernando Pessoa


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Domingo - 23/05/2010 - 09h15

Não digam que isso passa

Não digam que isso passa,
não digam que a vida continua,
e que o tempo ajuda,
que afinal tenho filhos e amigos
e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo
Mas morreu bem (que não quereria uma morte como essa?)

Não me digam que tenho livros a escrever
e viagens a realizar.
Não digam nada.

Vejo bem que o sol continua nascendo
nesta cidade de Porto Alegre
onde vim lamber minha ferida escancarada.

Mas não me consolem:
da minha dor, sei eu.

Lya Luft


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Domingo - 16/05/2010 - 07h46

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Mário Quintana


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Domingo - 09/05/2010 - 07h28

Para sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

Veja AQUI em vídeo e música incidental "Ave Maria" com o New Age;

Veja AQUI também.


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Segunda - 26/04/2010 - 20h42

Francisco José ganha mais espaço em governo municipal

O grupo do deputado estadual Francisco José (PMN) ganha espaço considerável no governo da prefeita de direito Fátima Rosado (DEM). E pode avançar mais.

Nos intramuros do Palácio da Resistência e fora dele, a informação corrente é de que a mulher do ex-deputado Lúcia Bessa, ex-diretora do Hospital Rafael Fernandes (órgão estadual), tende a ser nomeada em breve. O cargo, em discussão, aponta para diretoria da Unidade de Pronto-Atendimento do Santo Antônio.

Francisco e seu filho, vereador Francisco Júnior (PMN), há pouco menos de duas semanas anunciaram oficialmente mudança da oposição para o governismo. Justificaram que era resultado da composição entre o PMN do presidente da Assembleia Legislativa Robinson Faria (PMN) com o DEM da senadora Rosalba Ciarlini (DEM).

Robinson deverá ser candidato a vice-governador, em chapa encabeçada por Rosalba, madrinha e endossante do governo da prefeita Fátima, a "Fafá".

A princípio, Francisco José é pré-candidato a deputado estadual. Entretanto, o próprio Palácio da Resistência negocia decisão em contrário, pois vê que sua postulação acerta em cheio a candidatura à reeleição do deputado Leonardo Nogueira (DEM), marido da prefeita.

Ainda hoje trago mais detalhes de bastidores sobre esse tema. Aguarde. 


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Domingo - 25/04/2010 - 02h45

Os desaparecidos

A natureza, como a história,
segrega memória e vida
e cedo ou tarde desova
a verdade sobre a aurora.

Não há cova funda
que sepulte a rasa covardia.
Não há túmulo que oculte
os frutos da rebeldia.

Cai um dia em desgraça
a mais torpe ditadura
quando os vivos saem à praça
e os mortos da sepultura.

Bertold Brecht


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Domingo - 18/04/2010 - 10h02

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo.

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guarda-se o que se quer guardar.

Antônio Cícero - Poeta


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Domingo - 11/04/2010 - 12h55

Lenda da Lagoa Seca

Lagoa Seca?
Por que foi que ela secou?...
Como os olhos de chuva moça
Que pouco tempo chorou?...
Mas, não! A Lagoa Seca
Sempre teve água demais...
Doces águas lamentosas
Nas margens sempre choraram!
As más línguas dizem há muito
Que um dia ela secou
Porque negou água a um Santo
Tornando a água salobra
Que o Santo jamais provou!
E a areia a água embebeu!
Coitada da Lagoa Sêca...
São histórias das más línguas
Isto nunca sucedeu!

Jorge Fernandes (1887-1953) poeta natalense


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Domingo - 04/04/2010 - 10h36

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto (1944-1972)


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Domingo - 21/03/2010 - 10h04

Queria...


Queria ser somente pura
de argumentos, de palavras,
pensamentos e controvérsias.

Nada quero ser além de um
rio e suas correntes,
nada de mar, de profundezas...
Ou que nascesse em mim
humildade, uma adolescente
mansa, flor sem espinho.

Essa ânsia das coisas simples...
Queria profundamente não ser
tão desigual,
tão absurda no meu perfume,
no meu capricho,
tão errante...
Queria mais liberdade no acordar,
mais privacidade na madrugada,
queria não ser “eu” por enquanto.

Sulla Mino é poetisa e contista (Veja AQUI)

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Domingo - 14/03/2010 - 22h18

Ser poeta

Ser poeta é navegar
Num rio de esperanças
De alcançar com a mente
Onde ninguém mais alcança
É viver como nasceu
Eternamente criança.

Antônio Francisco - Poeta mossoroense

* Homenagem do Blog ao Dia Nacional da Poesia 


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Domingo - 14/03/2010 - 14h32

Súplica

Sem deixar rasuras
Apaga, de leve, meus erros!
Aplaca a sede e a ansiedade
Que me leva à estupidez.

Ensina como usar a liberdade,
Dá-lhe asas e ousadia
Para empreender voos rasantes
Até então presos em teias poeirentas,
Tecidos por aranhas insaciáveis.

Poda essa insensatez!
Mostra-me o mundo cor-de-rosa
E de como deve ser bom
Que fisga somente o bem
De sentir-se só!
O mundo do sossego.

Dulce Cavalcante - Poetisa mossoroense

* Homenagem ao Dia Nacional da Poesia


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Domingo - 14/03/2010 - 07h20

Tatuagem

O colibri que habita aquelas costas,
Sugando a carne fresca com o bico,
É a quem nestes versos eu suplico
O caminho secreto das respostas.

Serás por entre gritos, entre espasmos,
Passarinho liberto e prazenteiro
Ou apenas um reles prisioneiro
Do corpo, da fogueira, dos orgasmos?

Quais perfumes seduzem teus sentidos,
Os aromas sutís da castidade
Ou a força motriz dos corrompidos?

Por fim, que se declare e me revele,
Por quais razões trocaste a liberdade
Para amar tatuado à flor da pele.

Cid Augusto - Poeta mossoroense

* Homenagem do Blog ao Dia Nacional da Poesia


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Domingo - 14/03/2010 - 03h15

Surto

O frio do sol
que esquenta a lua morna
me faz correr em disparada
por esta rua deserta.
Parada, incerta
e minha alma
jaz atropelada
pela força deste sentimento.

Margareth Freire - Poetisa mossoroense

* Homenagem do Blog ao Dia Nacional da Poesia


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Domingo - 07/03/2010 - 09h11

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Aqueles éramos nós e não eram
eram os couros as cangas a voz
os olhos abismados à espera
de qualquer coisa além de nós

mas as palavras elas não eram
não aquelas infusas em avelós
acesas na febre das quimeras
a irromper dos cafundós

da alma que não não era
embora sejamos nós
aqueles inertes à espera

de palavras (de uma voz)
que (ao menos) desesperem
os nossos dias a nossa voz.

Adriano de Sousa


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Domingo - 28/02/2010 - 22h58

Os últimos poetas

Para onde foram os poetas?
Por que não existem mais?
E a poesia louca, inquieta,
Em que túmulo ela jaz?

Estão mortos realmente?
Os eternos foram embora?
Então por isso a rosa sente,
Então por isso a lua chora.

Não deixe, mundo maldito,
Que se cale esse grito
Desses loucos e suas metas.

E nós? Gritemos ao povo:
Estamos aqui de novo.
Nós os últimos poetas.

Caio César Muniz


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Domingo - 21/02/2010 - 12h12

Minha grande ternura

Minha grande ternura

Pelos passarinhos mortos;

Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura

Pelas mulheres que foram meninas bonitas

E ficaram mulheres feias;

Pelas mulheres que foram desejáveis

E deixaram de o ser.

Pelas mulheres que me amaram

E que eu não pude amar.

Minha grande ternura

Pelos poemas que não consegui realizar.

Minha grande ternura

Pelas amadas que

Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura

Pelas gotas de orvalho que

São o único enfeite de um túmulo.

Manuel Bandeira poeta pernambucano


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Domingo - 14/02/2010 - 04h44

Big Brother Brasil, um programa imbecil

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal...

Antônio Barreto é poeta popular baiano


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Domingo - 07/02/2010 - 09h08

O mendigo

Esse que você vê tão sem destino
feito carta jogada de um baralho
já foi muito benquisto e muito fino,
apesar dessa forma de espantalho.

Esse velho cansado peregrino
também teve seu lar e seu trabalho.
Não viveu toda a vida em desatino,
como triste e perdido rebotalho.

Pois quem diz há mais tempo conhecê-lo,
me garante que tanto desmantelo
tem alguma mulher por responsável…

Sendo assim, nós o vemos todo dia
carregando a suposta fantasia
por aquela que o fez tão miserável.

Marcos Ferreira é poeta


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Domingo - 31/01/2010 - 02h26

Ama-me por amor somente

Ama-me por amor somente.
Não digas: "Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente
minh'alma em comunhão constantemente
com a sua".

Porque pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade
de chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade.

Madre Teresa de Calcutá


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Domingo - 24/01/2010 - 05h38

Arcanjo

Arcanjo pousa em São Paulo
Trazendo Lápis nas veias
E temas de encantação.
Vem de longe, vem de perto,
De sua ilha flutuante;
Traz a voz dos oceanos
Na poesia de sua prosa
E deixa em Piratininga
Lembranças de Mossoró,
Verdes mares cearenses,
E o lirismo de Natal.
Lápis nas veias se escreve
Com noturnos de petróleo
E tinta azul do infinito.
Bem-vindo Amigo que chega,
Arcanjo que se incorpora
Aos vitrais deste Instituto.

Paulo Bonfim é poeta

* Saudação do poeta Paulo Bomfim, membro da Academia Paulista de Letras, ao livro "Lápis nas veias", de Clauder Arcanjo, dia 15 de janeiro último, na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). 


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Domingo - 17/01/2010 - 11h00

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira - poeta


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Domingo - 03/01/2010 - 05h13

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Paulo Leminski (1944-1989)


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Quinta - 31/12/2009 - 07h25

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Veja vídeo AQUI.


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Domingo - 27/12/2009 - 10h00

Manhecença

O dia nasce grunindo pelos bicos
Dos urumarais...
Dos azulões... da asa branca...
Mama o leite quente que chia nas cuias espumando...
Os chocalhos repicam na alegria do chouto das vacas...
As janelas das serras estão todas enfeitadas
De cipó florado...
E o coên! do dia novo -
Vai subindo nas asas peneirantes dos caracarás...
Correndo os campos no mugido do gado...
No - mên - fanhoso dos bezerros...
Nas carreiras da cutia... no zunzum de asas dos besouros,
das abelhas... nos pinotes dos cabritos...
Nos trotes fortes e luzidos dos potros...
E todo ensanguentado do vermelhão das barras
Leva o primeiro banho nos açudes
E é embrulhado na toalha quente do sol
E vai mudando a primeira passada pelos
Campos todo forrado de capim panasco...

Jorge Fernandes (1887-1953)


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Domingo - 20/12/2009 - 22h31

Companhia

aonde quer que eu vá
a tua febre me comanda
cuidado
apenas mais um hábito
o bom nesta parceria
é o durante
o ninho desmantelado
a vertigem
aonde quer que eu vá
a tua umidade me habita
atenção
apenas mais uma inundação
o bom nesta entrega
é o pouso
aonde quer que eu vá
o teu ato é o meu
e somos
a cálida nascente.

Leontino Filho


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Domingo - 13/12/2009 - 10h30

Chuva

Nove e quinze da noite
Uma canção de Cartola inunda a sala
Uma chuva rala cai lá fora
Cubos de gelo dançam em transe
Em um copo sempre cheio.

O copo não se esvazia
O coração, sim.

Onze e quinze da noite
De uma noite que não terá fim
Um vazio que transborda o mundo...
Cubos de gelo bailam em delírio
Em um copo sempre presente

Enfim, o copo se esvazia.
O coração também.

Cefas Carvalho é jornalista e escritor

* Conheça AQUI o Blog de Cefas Carvalho


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Domingo - 06/12/2009 - 13h00

Incerto Caminhar

Na mesma estrada longa e sinuosa,
seguindo por estorvos, descaminhos
- ao lado a companhia generosa -,
agruras transformadas em carinhos.

A estrada, que se faz ida e retorno,
transporta realidade e desvario.
Há a vida no seu leito e em seu entorno,
assim como no curso de algum rio.

Também há o andarilho solitário,
disperso em seu mundo sempre errante,
sem data, sem agenda, sem horário.

A estrada é esta vontade de chegar...
E é o passo que transforma a todo instante
a vida num incerto caminhar.

David Leite é escritor, poeta, professor e advogado (do livro "Incerto Caminhar", Sarau das Letras, 2009)


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Sábado - 24/05/2009 - 10h12

Púrpuras tardes

No silêncio turvo e gélido,
espelhos e sorrateiros passos melódicos,
fundem-se em enigmática noite.
Serenata indesejada à janela,
assobios de ventos são augúrios
a arrepiar a epiderme da madrugada
Com gotas de claridade,
vaga-lumes,
sintagmas-luzes,
ponteiam o manto negro
do cio da escuridão.
E surgem
murmúrios de brisa
a balançar o escuro véu,
soprando vida,
despedaçando a solidão,
em tímidos veios de cor.
O dia avança, com a liberdade de um condor,
sabendo que outra vez morrerá.
Púrpuras tardes, prelúdios e presságios,
que outros passos e espelhos
urdirão de mistérios
outras noites sem estrelas...  

David de Medeiros Leite - david.leite@uol.com.br

* Poesia vencedora do III Prêmio de Poesia em Língua Portuguesa da Universidade de Salamanca (Espanha). Veja postagem sobre o assunto AQUI.


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Domingo - 24/05/2009 - 02h14

Despertar é preciso

Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.

Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada. 

Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,

Já não podemos dizer nada.

Vladimir Maiakóvski, poeta russo


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Domingo - 26/04/2009 - 19h40

Grãos de areia

Espero que meus versos consigam chegar,
Aonde têm que chegar.
Que meu sorriso mesmo distante,
Afaste as lágrimas do seu olhar.
É duro viver, mas você pode superar.
E com certeza, estrelas irão brilhar
pelos caminhos que você passar.
Existe fé no sorriso do seu olhar,
Pois você acredita na vida que está dentro de você.
Na fonte da esperança, você bebe a sede de amar.
Vem a noite como um cobertor e o leva a deitar,
Pois o sol da manhã precisa adormecer e você viver.
Caminhe na esperança de um novo amanhecer.
Se a vida o magoou, aprenda a superar.
O sorriso renascerá, num afago da noite que cairá.
Este é apenas um momento que você tem que passar.
Os meus versos irão chegar, aonde têm que chegar.
Quando sua cabeça nos seus ombros pesar,
Os meus versos serão os braços de apoio para você descansar.
Enxugue as lágrimas no seu olhar.
São versos de amor para uma pessoa que eu sei
Que nunca esqueceu de amar.
Procure em sua vida, o brilho de uma estrela,
Pois eu estarei lá.
Quando um sonho terminar,
É sinal que outro irá começar. Levante a cabeça, e lembre-se sempre:
- Que você é grande!
Por mais que um grão de areia venha cegá-lo,
Eu quero ser mais que um poeta.
Quero ser uma lágrima, para aquele grão de areia,
Dos seus olhos tirar.
Lembre-se de mim em cada verso, em cada momento,
Que você tiver que passar.
Por mais que a solidão venha,
Sozinho você nunca estará.
Serei sua alma amiga,
Pois como uma lágrima,
Escorrerei do seu olhar.

Alexandre Lemos (Príncipe Poeta), 28 anos, aluno da Apae.


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Sexta - 17/10/2008 - 17h10

Fafá e família repetem fórmula tradicional

Uma eventual dobradinha entre pai e filho, candidatos a deputado federal e estadual, não causa estranheza em Mossoró. É regra na elite política.

A postulação à Câmara Federal do atual deputado estadual Leonardo Nogueira (DEM), coadjuvada pelo filho Jerônimo a estadual, é natural e compreensível (veja postagem abaixo).

Com meios para torná-los campeões de voto e garantia avanço estratégico, sua facção joga para enraizar poder e não ficar como penduricalho de ninguém. Por enquanto, há o mandato de Leonardo e o de sua mulher, prefeita Fafá Rosado (DEM).

Uma candidatura viável a deputado estadual alargaria essa força.

Do outro lado da família, a deputada federal Sandra Rosado (PSB) e sua filha Larissa Rosado (PSB), deputado estadual, já adotam a dobradinha. Antes eram Laíre Rosado (PSB) – marido de Sandra – e sua mulher que dividiam esses espaços.

Ele foi deputado federal e ela era deputada estadual.

Portanto, quem é que vai impedir a ala de Fafá Rosado de fazer o mesmo?

* Aguarde ainda hoje:

- "Operação Sal Grosso" explodirá com medidas explosivas;
- Vereador propõe banimento de reeleitos da presidência da nova câmara.


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Domingo - 22/06/2008 - 09h04

Restos mortais

O mundo sobrevive insano,
cruel e covarde,
não há saudades, lembranças ou

verdades.

Há restos somente de amor e
de maldade.
Sangue na blusa do assassino,
calo nas mãos do coveiro,

lágrimas e voz rouca no jovem em protesto.

Não dá para apagar o pecado em um
papel velho e traçar novos contornos de
um novo dia,
um sol e uma casinha como
no desenho de criança.

O sabido não mais se queixa e
a idéia de sair correndo não foi minha...
Este mundo de cemitérios e
histórias mortas,
estes restos,
que ao nascer já não se tem vida alguma...
Uma bela maçã, este foi o pecado...

Agora só mutantes vestidos de fantasmas,
Ícaros,
e ao invés de se cair no  mar,
caímos nos  restos mortais do tempo
com panetes na boca.

Sulla Mino (AQUI).


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Domingo - 15/06/2008 - 21h39

Para belum

Belo!!
Nos livros que folheio,
Te leio!
Nos desenhos que faço,
te traço!
Nas paisagens que almejo,
te vejo!
No murmúrio das ondas,
te ouço!
No ar que respiro,
te sinto!
Nas idéias que tenho,
te penso!
Nos trabalhos que faço,
te acho!
E confesso,
liberta, sofrida,
de espera entorpecida,
na fonte da vida,
na estrada que piso,
te preciso!

LG

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Domingo - 08/06/2008 - 12h02

Morre lentamente


Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto sobre o branco"
e os "pontos nos is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar.

Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda, poeta chileno

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Domingo - 06/04/2008 - 09h00

Comício em beco estreito

Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição.

Um locutor tabacudo
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.

Uma gambiarra véa
Banguela no acender
Quatro faixa de bramante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um taró
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer

Aí é subir pra riba
Meia dúzia de corruto
Quatro babão, cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha é essa:
Três promessa por minuto.

Anunciar a chegança
Do corruto ganhador
Pedir o "V" da vitória
Dos dedo dos eleitor
E mandar que os vira-lata
Do bojo da passeata
Traga o home no andor.

Protegendo o monossílabo
De dedada e beliscão
A cavalo na cacunda
Chega o dono da eleição
Faz boca de fechecler
E nesse qué-ré-qué-qué
Vez por outra um foguetão.

Com voz de vento encanado
Com os viva dos babão
É só dizer que é mentira
Sua fama de ladrão
Falar dos roubo dos home
E tá ganha a eleição.

E terminada a campanha
Faturada a votação
Foda-se povo, pistom
Foda-se caminhão
Promessa, meta e programa...
É só mergulhar na Brahma
E curtir a posição.

Sendo um cabra despachudo
De politiquice quente
Batedorzão de carteira
Vigaristão competente
É só mandar pros otário
A foto num calendário
Bem família, bem decente:

Ele, um diabo sério, honrado
Ela, uma diaba influente
Bem vestido e bem posado
Até parecendo gente
Carregando a tiracolo
Sem pose, sem protocolo
Um diabozinho inocente.

Jessier Quirino 


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Domingo - 24/02/2008 - 23h48

Não sei


Não sei...
Se a vida é curta ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido
Se não tocarmos os corações das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Amor que promove.
E isso não é coisa do outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja curta,
Nem longa demais,
Mas, que seja intensa,
Verdadeira,
Pura,
Enquanto durar.
Feliz aquele que transfere o que sabe. 

Cora Coralina, poetisa goiana

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Domingo - 06/01/2008 - 03h16

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram vôo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

Pablo Neruda, poeta chileno


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Domingo - 30/12/2007 - 01h22

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ver,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra
birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta ou recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drumonnd de Andrade, poeta


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Domingo - 23/12/2007 - 01h58

Desejo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,

Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes e, que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Victor Hugo

* O texto acima percorre essa infindável Internet. Chegou até a mim por boas mãos e sob bons propósitos. Assim, também, oferto a ti, webleitor. De coração.

Quanto à autoria, tenho minhas dúvidas. Vou pesquisar para melhor assegurar a informação. De qualquer modo, creio valer pelo conteúdo.

Desejo-lhe tudo isso.


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Domingo - 16/12/2007 - 03h00

O mendigo


Esse que você vê tão sem destino
feito carta jogada de um baralho
já foi muito benquisto e muito fino,
apesar dessa forma de espantalho.

Esse velho cansado peregrino
também teve seu lar e seu trabalho.
Não viveu toda a vida em desatino,
como triste e perdido rebotalho.

Pois quem diz há mais tempo conhecê-lo,
me garante que tanto desmantelo
tem alguma mulher por responsável...

Sendo assim, nós o vemos todo dia
carregando a suposta fantasia
por aquela que o fez tão miserável.

Marcos Ferreira é poeta e escritor 

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Domingo - 02/12/2007 - 01h28


Se não puderes ser um pinheiro
no topo de uma colina
sê um arbusto no vale,
mas sê o melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo,
sê um pouco de relva,
e dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
sê apenas uma senda.
Se não puderes ser o Sol,
sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda


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Domingo - 11/11/2007 - 17h12

Quando os nazistas vieram atrás dos comunistas

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar...

Martin Niemöller, Pastor luterano, perseguido pelo Nazismo, por não aceitar o regime que oprimia a todos os alemães, até aos que o serviam.

P.S: Não é mera coincidência a relação do poema em epígrafe e tempo, presente, que testemunhamos numa cidade interiorana do RN. 


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Domingo - 28/10/2007 - 02h50

O poema da liberdade

Declaro, em mim,
e aos ventos e mares de Cuba,
toda a liberdade.
E o homem livre já vive o céu.
Aqui, na terra, o homem verdadeiramente livre
desenha os contornos de um céu
azul como o da África
ou dos sertões do Brasil.
Meu grito libertário já chegou à floresta da Bolívia
e, ao contrário do que pensam alguns,
não cessou.
Meu punho está firme,
pronto e rijo.
Já penso no próximo combate.
Travarei  esse combate entre as palavras
e a ignorância.
Travarei esse novo combate entre o pão
e a fome.
Travarei esse velho combate entre a luz
e a obscuridade.
Lutarei, desesperadamente, sem sentir
qualquer dor.
Os meus amigos e camaradas
irão curar minhas feridas
com o bálsamo da verdade
e da honra.
Desafiarei os perigos
e correrei montanhas e todos os riscos.
Minha guerrilha não cessará
enquanto houver um homem,
uma mulher,
um velho,
uma criança,
sem casa,
sem chão,
sem o arroz da ilha
ou o feijão do continente.
Não cessará minha batalha
enquanto eu ouvir a canção
da Latino-América.
A fadiga não me alcançará,
enquanto – nas madrugadas –
eu sorver o orvalho fresco
e a seiva que escorrem sobre as folhas
das árvores imemoriais da paz
e sobre a minha fronte sangrando.
Não interromperei minha luta
e minha gargalhada ainda ecoará,
apavorando meus algozes,
enquanto existirem povos
sem olhos para ver
o rumo certo,
sem ouvidos para ouvir
o poema da liberdade,
sem língua para gritar
e buscar, no fundo do peito,
o espírito altivo e forte
da América Independente!

* Poema em homenagem a Che Guevara, lido pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), em sessão especial do Senado no dia 23 passado)

Lívio Oliveira, poeta e advogado


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Domingo - 14/10/2007 - 12h00

A máscara (Homenagem a Paulo Autran)

A máscara que vesti
não era a máscara que
alguns homens
e mulheres,
incautos,
desavisados,
insistiram
e teimam em ostentar.
A máscara que vesti
e o nariz de palhaço
me trouxeram dignidade
e honra.
E o sonho
me chegou,
bem perto,
bem perto!
Com aquela máscara,
com aquela fantasia,
eu, um mero clown,
um operário sonhador,
dei, de volta,
o sorriso surrupiado
do povo.
Dei, de volta,
àqueles que me viram
em cena,
àqueles que me tomaram
no ato,
toda força do meu corpo
e de minha alma,
e, ainda, do meu sonho,
algo que nunca
teve máscara!

Lívio Oliveira é poeta e advogado (livioliveira@yahoo.com.br)


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Domingo - 26/08/2007 - 11h32

Poetas, poetas

Nas veias do poeta inspirado corre vinho e veneno,
raios de sol, água pura, mistérios do oceano,
ternura, sonhos dourados, olhar puro e leviano,
ele verseja num tom e diz que não quer, querendo

Devanear, bem sabemos, é próprio de quem poema,
é obra de garimpeiro, de escultor com cinzel,
de escritor tarimbado que viu Torre de Babel,
de Pierrot apaixonado, do casal Páris e Helena

Mas só ao poeta é dado admirar o orvalho,
namorar o brilho da lua, ouvir atento as estrelas
conhecer muitas mulheres e a um só tempo quere-las

Sempre alheio ao que o cerca, é eterno sonhador
enfrenta de perto a morte, não tem medo da dor
se mil vidas ele tivesse gostaria de vivê-las

Gilbamar de Oliveira, ex-bancário, poeta e cronista


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Sexta - 17/08/2007 - 09h29

Drummond vive

Lá se vão 20 anos.

Hoje faz esse tempo: são 20 anos de ausência física do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Para não passar em branco, esse papel virtual tenta plasmar um de seus temas preferidos: o amor. Abaixo, mais uma de suas belas heranças. Um legado a nós e às várias gerações que virão: 

Ao amor antigo 

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


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Domingo - 08/07/2007 - 08h32

Mensagem

Sou, confessadamente, um apaixonado. Mário Quintana é uma afeição que atravessa o tempo, ladeando-me. Vivo fosse, estaria com 100 anos neste século que é também seu, meu. Nosso! De tão presente, nem percebo que se foi. Abaixo, a doação de um webleitor para todos nós.

Quando se vê, já são seis horas...

Quando se vê, já é sexta-feira...

Quando se vê, já é Natal...

Quando se vê já terminou o ano...

A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, passaram-se 50 anos

Quando se vê, não sabemos mais por onde andam nossos amigos.

Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.

Agora, é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado, um dia, uma oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

Seguraria todos os meus amigos, que já não sei onde e como estão, e diria: "Vocês são extremamente importantes para mim."

Seguraria o meu amor, que está há muito à minha frente, e diria: "Eu te amo".

Dessa forma, eu digo: não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo. Não deixe de ter alguém ao seu lado, ou de fazer algo, por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá, será desse tempo que infelizmente... não voltará mais. 

Mário Quintana


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