Graduado em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM, atual UFERSA), mestre em Ciências dos Alimentos pela Escola Superior de Agricultura de Lavras (Atualmente UFLA) e doutor em Ciências dos Alimentos (Fisiologia Pós-Colheita) pela Universidade Federal de Lavras, Josivan Barbosa Menezes Feitoza foi o principal articulador da mutação da Esam para o status de Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA).
Em nossa série "Conversando com...", ele - que é reitor da Ufersa - fala sobre a instituição, política educacional e política partidária. Veja abaixo esse bate-papo:
Blog do Carlos Santos – A Ufersa experimenta um gigantesco crescimento físico, acadêmico e de visibilidade. É resultado de uma conjuntura favorável desencadeada pela “Era Lula” ou a simbiose desse fator com sua visão de gestor?
Josivan Barbosa – A universidade pública federal tinha uma grande demanda reprimida do Governo FHC, sendo que a da Ufersa era gigante. A Esam-Ufersa foi pautada pela cautela dos dirigentes e também pela condição de faculdade (sem autonomia). A grande diferença foi a nossa luta e a luta dos homens públicos do RN para a transformação da faculdade em Universidade. Tivemos a coragem e o apoio dos conselhos da Universidade para apostar no crescimento. Não tivemos medo de criar novos cursos. Criamos e fomos ao MEC pedir apoio. Sempre fomos atendidos. Até o momento toda a pactuação com o MEC foi cumprida. O ministro e o presidente têm muito compromisso com a educação do país.
BCS – No ranking das instituições federais de ensino no Brasil, a Ufersa saiu da incômoda posição de 55ª colocada (última) para a 45ª, na avaliação do Ministério da Educação (MEC). O que concorreu para esse salto em tão pouco tempo?
JB – Esta era uma situação que nos incomodava. A instituição tinha poucos cursos, poucos alunos e poucos recursos eram alocados pelo MEC. Era uma situação que preocupava. Graças ao apoio da comunidade acadêmica na aprovação das nossas propostas de novos cursos, conseguimos na Expansão Fase 1 (2005-2007) criar 8 novos cursos e no REUNI (Expansão Fase 2) criamos mais 7 cursos. Além disso, de 2007 a 2010 tivemos 6 audiências com o ministro Fernando Haddad para negociar, extra REUNI, a expansão territorial. Até o momento conseguimos o campus do Sertão Central (Angicos: 17 milhões, 60 professores, 35 servidores, 1200 alunos quando em pleno funcionamento) e estamos aguardando a autorização para o médio e alto Oeste. É uma grande luta, mas o apoio da comunidade acadêmica e da classe política tem sido fundamental
BCS – – Uma crítica comum à Ufersa, ex-Esam, é de que ela há tempos está encastelada em si mesmo, com papel insignificante no trabalho de extensão, ou seja, além de seus muros e no contexto social. Dá para provar o contrário?
JB – Ainda não. Conseguimos minimizar esta situação. Mas, acredito que estamos no caminho correto. Uma instituição universitária dificilmente presta um bom serviço ao setor produtivo regional com um número de técnicos (docentes) inferior a 500. Este era o grande problema da Esam. O seu quadro de docentes era, em janeiro de 2004, de apenas 54 e somente numa área do conhecimento, Ciências Agrárias. Com a ampliação do quadro de docentes e de servidores técnico-administrativos e com o aumento dos programas de pós-graduação e a ampliação das áreas de conhecimento, a Ufersa está sendo bem recebida pela sociedade de Mossoró, do RN e do Semiárido.
BCS – Além de crescer em estrutura, a Ufersa também infla em cursos (eram dois, hoje são 22), além do número de alunos (eram pouco mais de 600 e hoje cerca de 5 mil). E quanto à docência? Os muitos doutores têm cumprido o papel estratégico de fomento à pesquisa?
JB – Sim. Os pesquisadores da Ufersa aprovam bons projetos nas principais agências de financiamento à pesquisa científica do país (EMBRAPA, CNPq, FINEP, CAPES, BNB-ETENE-FUNDECI, PETROBRÁS, entre outros) e, aos poucos, começam a participar de convênios com outros países. Apenas a título de exemplo, em 2004 a Ufersa tinha apenas um bolsista produtividade em pesquisa do CNPq, a elite da pesquisa científica nacional; hoje ela tem 15 pesquisadores nesta situação. Podemos, assim, dizer que a Ufersa aumentou em 15 vezes a sua competência na produção do conhecimento.
BCS - Estudantes da Residência Universitária queixam-se de falta de maior suporte, sobretudo quanto à alimentação. A grande maioria é de municípios longínquos e de clara carência financeiro-material. Como alterar esse quadro favoravelmente?
JB – Aprovamos, no último mês de dezembro, um programa denominado de "Permanência", o qual contempla uma série de bolsas para os estudantes em situação de vulnerabilidade sócio-econômica. Isto só foi possível, porque a Ufersa aderiu integralmente ao novo ENEM e com isso teve os recursos de assistência estudantil ampliados de 600 mil para 1,2 milhões em 2010.
BCS – Até bem poucos anos, a quase totalidade dos recursos da Ufersa, então Esam, ficava para cobertura de sua cevada folha de pessoal. Não sobrava quase nada pro custeio. E hoje? Qual o orçamento-2010 da instituição e a relação entre folha, custeio e investimento?
JB – O orçamento de custeio (pagamento de pessoal terceirizado, água, luz, serviços de comunicação, manutenção das instalações e custeio da graduação e pós-graduação) fica em torno de 10% do orçamento geral da UFERSA. Portanto, trabalhamos no limite. Entretanto, este orçamento de custeio baixo funciona como um incentivo para semanalmente buscarmos junto aos ministérios, através de novos projetos e parcerias, recursos extra para o funcionamento da instituição. Não podemos esperar apenas pelo orçamento do MEC. Seria a mesma coisa de uma prefeitura esperar apenas pelo orçamento do município e não buscar recursos estaduais e federais.
BCS – O senhor realizou importante costura que desaguou na transformação da Esam na Ufersa; também pavimenta caminha à expansão com os Campi de Angicos, Caraúbas e Pau dos Ferros, além de transformar a instituição num canteiro com mais de 50 obras (salas de aulas e de professores, laboratórios, biblioteca, equipamentos esportivos etc). Qual o segredo para esse êxito pessoal e institucional?
JB – Acredito que o grande segredo do crescimento da Ufersa foi a nossa atitude de sempre trabalhar em sintonia com os homens públicos do RN, desde os vereadores de Mossoró até o presidente do Congresso Nacional e o presidente da república. Nenhum parlamentar foi apontado como mais importante. Todos nos ajudaram. Claro que a posição política de alguns parlamentares no cenário nacional fez com que um se destacasse sobre outro. Outro papel muito importante nesta sintonia política da reitoria da Ufersa nos últimos cinco anos foi o da professora Wilma de Faria (PSB). A sua condição de aliada do Governo Central facilitou muito as negociações com a Casa Civil, notadamente por ocasião da transformação da Esam em Ufersa.
BCS – O senhor não tem qualquer filiação partidária, mas é citado e manifesta sonho de ingresso na vida política. Afinal de contas, por onde será sua porta de entrada? Prefeitura de Tibau, Felipe Guerra, Mossoró ou coisa nenhuma?
JB - A Ufersa está passando por um momento delicado. Estamos dando os primeiros passos como Universidade e se estes passos forem acertados, teremos, em breve, uma instituição muito importante para o desenvolvimento do Semiárido. São inúmeros projetos em andamento até o término do meu mandato em agosto de 2012.
A nossa experiência no Congresso Nacional com a tramitação do projeto de transformação da Esam em Ufersa e os inúmeros projetos que trouxemos para a instituição, em sintonia com os ministérios e outros órgãos do Governo Federal e as parcerias com os municípios e com o Governo Estadual, podem ser aproveitados em benefício do desenvolvimento da região após 2012. Neste sentido, tenho colocado o meu nome à disposição da sociedade e da classe política na condição de contribuir. Aprendi que o gestor público é, antes de tudo, um servidor. É com este propósito que pretendo contribuir. Vamos estudar as possibilidades de Tibau ou Mossoró.
Foto - Cézar Alves